A Amazônia não é o pulmão do planeta (mas ainda será um problema se ela desaparecer)

Hoje vamos desconstruir um mito antigo: não, a Amazônia não é o pulmão do mundo. E eu fui encontrar com a Nathalia Nascimento, doutora em ciências florestais, para esclarecer o papel da Amazônia e entendermos porque a situação é preocupante.

Hugo Kloeckner

3/19/20257 min read

Station Amazonie é uma newsletter originalmente em francês que ajuda a desmistificar a Amazônia a partir de pessoas que vivem nela. Toda semana, conheça uma história local para entender esse território e seus desafios.

Essa newsletter foi criada para o público francês. Porém, acho importante esses conteúdos estarem também disponíveis em português, para que os entrevistados e outros interessados consigam acessá-lo.

Contexto:


  • A Amazônia não é o pulmão do mundo: ela produz muito oxigênio (16% da fotossíntese mundial), mas menos que os oceanos (50%). E ela consome tudo.

  • Porém, ela é um poço de carbono (200 bilhões de toneladas), uma torneira (16-22% da água doce que derrama no mar) e o coração da biodiversidade (1 espécie em cada 10).

  • Frente ao aquecimento, a Amazônia se adapta e se transforma aos poucos numa savana. O ponto de não retorno está chegando.

  • Temos que parar de substituir árvores por gado e soja e, para isso, é necessário uma mudança radical da cultura do desenvolvimento local.



A ideia de que “a Amazônia é o pulmão do planeta” nasceu em 1971.


Estamos na véspera da conferência de Stockholm, a primeira reunião da ONU dedicada ao meio ambiente (a primeira COP aconteceu em 1995 em Berlim). Os ambientalistas buscam alertar a opinião pública mundial a qualquer custo.

Um erro de digitação com um efeito borboleta: o nascimento de uma (quase) fake news


Numa entrevista dada à agência United Press, um biólogo alemão afirmou que a Amazônia armazenava 25% do CO₂ (dióxido de carbono) emitido no mundo.


Mas a sua declaração foi publicada com um erro de digitação: o C sumiu e acabou saindo O₂, a sigla do oxigênio.


O artigo publicado dava a entender que a floresta produzia 25% do oxigênio do planeta. A informação viralizou: a Amazônia tinha acabado de virar o pulmão do mundo. Ninguém prestou atenção às refutações do cientista.


54 anos depois desse erro de digitação e na véspera da COP amazônica (em Belém, em novembro), fui encontrar com uma doutora em ciências florestais para esclarecer esse mal-entendido.


Nativa de Belém, Nathalia Nascimento me explicou o verdadeiro papel sistêmico da Amazônia e os perigos que ela enfrenta.


“A gente tem essa ideia de pulmão porque a floresta presta um serviço: ela absorve dióxido de carbono e produz oxigênio. Mas, na verdade, a Amazônia tem um saldo nulo: ela consome todo o oxigênio que produz. Os oceanos são o pulmão do planeta”.

Os números podem ser estonteantes: 16% da fotossíntese do planeta acontece na região, segundo o Painel Cientifico para a Amazônia (PSA).


(Lembrete de biologia : sob a ação do sol e da água, as plantas absorvem dióxido de carbono e rejeitam oxigênio na atmosfera).


Só que a floresta e seus 7 milhões de quilômetros quadrados (quase duas vezes o tamanho da Europa) é um ecossistema em clímax. Isso quer dizer que ela é madura e autossuficiente: ela se regenera permanentemente. Ela produz o oxigênio que ela precisa, nada mais, nada menos.


O papel sistêmico da Amazônia: poço de carbono, torneira e coração do planeta


A cientista co-publicou, em 2024, um artigo noticiado na revista Nature (Critical transitions in the amazon forest system) específica: “por outro lado, com o desmatamento, especialmente com os incêndios, o saldo passa a ser positivo e ela começa a emitir dióxido de carbono”.


Intacta, a região estoca 200 bilhões de toneladas de carbono no solo e nas árvores, ou seja 5,3 vezes o que o mundo emitiu em 2024. Ela não é o pulmão do mundo, mas um poço de carbono. Quando ela queima, esse estoque acaba na atmosfera.


A Amazônia presta um outro serviço vital para o planeta: os seus rios e as suas chuvas abundantes formam uma formidável torneira responsável por 16% a 22% da água doce que deságua nos oceanos.


E para por aqui. A evaporação e a transpiração das plantas depositam na atmosfera um nível de umidade tão alto, que as nuvens que ela forma são chamadas de rios voadores.


Eles amenizam o calor do solo e, levado pelos ventos, vão derramar água no sudeste do continente. Uma torneira que torna possível a existência de um clima tropical em cidades como São Paulo. E que também irriga as plantações que fizeram a riqueza do sudeste.


Poço de carbono, torneira, mas também, como revela a pesquisadora, “o coração do planeta: essa biodiversidade não tem equivalente no mundo, tanto de ecossistemas terrestres, quanto aquáticos”.

A Amazônia concentra 10% da biodiversidade do planeta: concretamente, isso significa que, considerando todos os seres vivos (fauna e flora) inventariados no mundo, um em cada dez se encontra na Amazônia. Um mamífero em cada três e um pássaro em cada cinco.


Ela acrescenta: “isso sem falar do potencial cultural dos povos tradicionais”. Neste território, repartido entre nove países, moram 410 povos indígenas falando 300 línguas, bem como os outros povos tradicionais, como os quilombolas e os ribeirinhos.


Frente às mudanças climáticas, a Amazônia se adapta e se transforma numa savana


Os serviços prestados pela floresta são numerosos e a modificação desse ecossistema tem consequências que já são perceptíveis.


“Frente ao aumento das temperaturas, a redução das chuvas e o aumento da intensidade e da regularidade das secas, como qualquer vegetação, a floresta começa a se adaptar. O risco é ver as espécies de savana começarem a dominar”.


A savana mencionada pela pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) não é aquela do Rei Leão. No Brasil, existe um bioma (ecossistema) chamado cerrado, caracterizado por uma cobertura vegetal menor e mais espaçada, adaptada a um clima seco. Uma garrigue (vegetação seca do sul da França) versão brasileira.


A floresta já começou a mudar e isso preocupa Nathalia Nascimento: “a gente já identificou que o clima mudou no arco do desmatamento. O calor é maior, a temporada das chuvas mais curta e atrasada. A vegetação se adapta.”


Ela completa: “ainda não passamos do ponto de não retorno mas o processo de transição já começou”.


O ponto de não retorno, ou tipping point, é um conceito científico que se popularizou fora da bolha acadêmica. Ele se refere ao momento a partir do qual não é mais possível voltar para trás e impedir a transição da floresta para uma savana.


O climatólogo brasileiro Carlos Nobre, pioneiro da pesquisa climática na Amazônia, estimou em 2019 que, se a gente passar de 20% a 25% de desmatamento, esse ponto será atingido. Segundo as pesquisas atuais, 17% da floresta já foi destruída.


A cientista compartilha a avaliação alarmante: “se a gente não consegue frear esse desmatamento, com regeneração e recuperação florestal, a Amazônia vai entrar em transição”.


Porém, ela ressalta que no estudo publicado na revista Nature, em 2024, “nós incluímos fatores regionais na nossa análise. A Amazônia não vai virar uma savana de uma vez. Tem que levar em conta as condições locais: vão ter lugares resilientes e outros, como a região central do Amazonas, mais vulneráveis”.


Temos o reflexo de enxergar a Amazônia como uma entidade homogênea com poderes mágicos. Tem que sempre ter em mente que a floresta não é o pulmão do planeta, nem um território cujas condições climáticas são iguais.


A Amazônia é diversa e a resposta desse ecossistema às mudanças climáticas depende do lugar. Partir dessa observação, permite sermos melhor equipados para enfrentar a situação.


Mais árvores, menos gado, menos soja: um desafio cultural


“Tenho falado a mesma coisa há 20 anos. Parece que a historia só se repete na Amazônia e que a gente não consegue sair desse círculo maldito”


A eficiência da luta contra o desmatamento está ligada à vontade política. Ela passou a ser uma prioridade pela primeira vez em 2004, no primeiro mandato do Lula. Entre 2004 e 2012, o ritmo do desmatamento diminuiu 77%.


O desmatamento voltou a se acelerar na presidência da Dilma, do Temer e, mais particularmente, sob o mandato de Bolsonaro, que bateu recordes. Apenas em 2022 o avanço do desmatamento voltou a desacelerar de novo.

Na opinião da pesquisadora, para encerrar esse círculo maldito e minimizar a chegada de negacionistas climaticos no poder, é preciso enfrentar uma batalha cultural no campo.


“Temos que começar a criar uma nova cultura do desenvolvimento para substituir esse modo de produção, que consiste em cortar árvores e pôr gado e soja no lugar. Se a gente não fizer o caminho reverso, substituindo gado por árvores, a gente vai seguir dependendo das mudanças dos governos”.


Ela considera que “a solução depende da mudança na maneira de enxergar a floresta e os seus benefícios”


Isso passa pela construção de “quadros, métricas e normas que não focam apenas no âmbito econômico, mas também no âmbito ecológico, social, cultural e histórico”.


Ela também comenta : “as soluções para a Amazônia devem ser pensadas com pessoas que estão na Amazônia”.


Essa ideia sempre surge nas trocas que eu tenho com os atores locais, que ultrapassam as diferenças ideológicas e sociais. Os amazônidas querem decidir o futuro dos seus territórios.


Semana que vem: a baunilha da Amazônia e a bioeconomia.

Evolução do desmatamento ao longo dos mandatos presidenciais. Fonte: Prodes

Tamendua tirando cochilo na REVIS, uma reserva a 50 km de Belém (c) archivos pessoais Hugo Kloeckner

Nathalia Nascimento durante a visita de campo (c) archivos pessoais Nathalia Nascimento

Revista Manchete publicada em 1971. (c) reprodução fundo Ricardo Cardim

A copa da arvores vista de baixo, no Parque Gunma, na região metropolitana de Belém (c) Dany Neves