Cumaru e circuito curto: o paradoxo da baunilha da Amazônia
Hoje vamos continuar explorando um conceito que está na moda na Amazônia: a bioeconomia. Eu fui conversar com a Juliana, uma empreendedora que percorre esse território para encontrar os produtores de cumaru.
Hugo Kloëckner
4/14/20256 min read
Station Amazonie é uma newsletter originalmente em francês que ajuda a desmistificar a Amazônia a partir de pessoas que vivem nela. Toda semana, conheça uma história local para entender esse território e seus desafios.
Essa newsletter foi criada para o público francês. Porém, acho importante esses conteúdos estarem também disponíveis em português, para que os entrevistados e outros interessados consigam acessá-lo.
Contexto:
O cumaru é nativo da Amazônia. O Pará é responsável por 70% da produção nacional.
Ela é produzido por extrativismo e agricultura familiar
Paradoxalmente, ela não é consumida nem valorizada no mercado local
Frente à competição externa e sem políticas públicas, indústrias locais têm que lutar para se desenvolver


Juliana Carepa en visite sur le terrain, chez Bastião et dona Maria, deux producteurs de fève tonka
(c) archives personnelles, Juliana Carepa
“A bioeconomia está em alta. É bom e é ruim. É bom porque abre os olhos das indústrias e dos consumidores locais sobre o potencial dos nossos produtos. Mas também chama a atenção do pessoal de fora…”
Juliana Carepa começou sua carreira como confeiteira. Mas logo ela guardou seu fouet e as suas formas para se dedicar ao seu ingrediente preferido: o cumaru. Há 4 anos, ela percorre o seu Estado natal, o Pará, em busca desse condimento apreciado no mundo todo.
O cumaru é uma semente extraída do caroço de uma fruta que se encontra na América Latina e no Caribe. No Brasil, 70% da produção é concentrada no Pará, na Amazônia brasileira (fonte: IBGE).
O cumaru é um velho conhecido das populações locais, que o incluíram na farmacologia tradicional. Ele é anti-inflamatório, antioxidante e vasodilatador (e até afrodisíaco, segundo alguns).
A palavra “cumaru” vem do Tupi e se refere à árvore que dá o fruto e cujo caroço contém uma semente de cumaru. Tradicionalmente, ele é usado como chá ou misturado com tabaco. A palavra “Tonka”, usada na França, vem da língua Kali’na, um povo indígena que se encontra na Guiana francesa.
Uma história de sucesso no mercado cosmético e alimentício que se iniciou no século XIX
A cumarina é a responsável pelo sucesso do cumaru. Essa substância, caracterizada por um cheiro de feno recém cortado, chamou a atenção dos perfumistas desde o início do século XIX. O cumaru faz parte da lista dos ingredientes do icônico Chanel n°5.
Um cheiro, mas também um sabor único. A também chamada “baunilha da Amazônia” se encontra nas vitrines das docerias e nas mesas dos restaurantes europeus.
Madame Brésil é uma loja de delicatessen brasileiros e amazônicos; Criada pela Chef Ana Luiza Trajano, a empresa busca promover os produtos do terroir brasileiro, com foco nos insumos amazônicos.
Alguns insumos como o tucupi e o puxuri estão apenas começando a aparecer nos cardápios compostos por Chef franceses, mas o cumaru já é um queridinho há muito tempo.
Como explica Thaís dos Santos, co-fundadora e responsável pelas operações do empreendimento, “O cumaru é um dos únicos produtos do nosso catálogo que já era conhecido de todo mundo. O nosso desafio é explicar aos nossos clientes (majoritariamente restaurantes) a qualidade do nosso cumaru. Ele é muito fresco, porque compramos direito dos produtores”.
Primeiro desafio do circuito curto: construir uma relação de confiança com os produtores locais
É esse mercado, o da restauração e da indústria alimentar, que a empreendedora busca abastecer. Jucarepa (o nome da sua empresa) oferece, principalmente no mercado brasileiro, sementes de cumaru inteiras ou em forma de pó, e caramelo com cumaru e flor de sal.
“Minha empresa tem uma relação muito próxima das pessoas que produzem o cumaru que eu vendo. Eles são extrativistas e também pequenos agricultores.”
Juliana Carepa vai até eles para conhecê-los antes de comprar o cumaru que em seguida ela transforma, no seu laboratório. Esse trabalho de campo permite, ao mesmo tempo, garantir a qualidade e o impacto ambiental e humano da produção.
A produção do cumaru é muitas vezes informal: os seus parceiros nem sempre têm CNPJ, e muito menos um selo garantindo que a sua produção é orgânica. Um selo tem custo alto: tem que pagar uma consultoria que vai avaliar as condições de produção a cada dois meses.
Essa opção é financeiramente inviável. Tanto para ela, quanto para os seus fornecedores.
Assim, a empreendedora faz também o papel de engenheira florestal. Ela vai nas plantações dos seus fornecedores para entender de que maneira eles trabalham e avaliar o impacto humano e ambiental da produção.
No caso das populações extrativistas, o problema não existe: as sementes são selvagens, portanto, orgânicas.
A bioeconomia se refere à promoção de atividades econômicas baseadas nos recursos naturais (o cumaru, no nosso caso), que respeitam os limites da biosfera e remuneram adequadamente as populações locais.
Nessa perspectiva, a definição do preço é chave. (eu falei desse assunto semana passada, no meu artigo sobre as derrotas de Ford, o empreendedor bilionário, na Amazônia).
“É difícil definir um preço justo. Tem muitas teses diferentes. Mas, pra mim, o mais importante é entender quanto tempo o produtor passou na safra, o dinheiro investido na plantação, o tempo dedicado a quebrar o caroço pra tirar a semente de cada fruta. Tudo isso precisa ser incluído na hora de definir o preço.”
Os frutos são colhidos quando eles caem no chão. Em seguida, é preciso, para cada fruto, extrair seu caroço e, de dentro dele, uma única semente. Depois, começa o processo de secagem.
No fim das contas, a empreendedora vai pagar um preço superior à média do mercado, por volta de R$168/kg, em um mercado cujo preço de entrada da matéria bruta é de R$90/kg.
“Também é um jeito de fidelizar os meus fornecedores”, acrescenta Juliana Carepa. No total, 15 famílias são impactadas, famílias cuja renda depende 70% do cumaru.
Segundo desafio do circuito curto: garantir uma transformação no local e uma demanda local
O seu laboratório, incubado na Universidade Federal do Pará (UFPA), permite a transformação da matéria-prima no próprio território amazônico. Chegando em Belém de barco, as sementes são identificadas (para garantir rastreabilidade), sorteadas (para garantir a qualidade) e secadas (para cumprir as normas da indústria) antes de serem transformadas.
Uma escolha significativa: em Belém, as estruturas ainda são pequenas e é quase sistematicamente mais fácil e rentável usar fábricas localizadas no sudeste do país.
“Seria mais fácil mandar minhas sementes diretamente de Santarém até São Paulo. Só que, diferentemente de outros atores do mercado, eu sou daqui. Da Amazônia. E eu acredito que não faz sentido explorar um recurso natural amazônico sem que isso tenha impacto para as populações locais.”
Isso tem um custo, pago pelo consumidor final. Mas, no fim das contas, o preço é o mesmo que uma outra estrela da gastronomia mundial: a baunilha.
Juliana Carepa está desenvolvendo um produto inovador, um extrato de cumaru, com um objetivo na cabeça: competir com essa famosa prima. Mas não necessariamente no mercado internacional.
“É o meu desafio pessoal: quero evangelizar o mercado local para que as pessoas daqui passem a consumir produtos da bioeconomia amazónica”.
Especialmente nas cidades, onde mora 73% da população (eu falei sobre isso no meu artigo sobre Belém), as pessoas não consomem cumaru, e muitos até ignoram a sua existência.
“Quando eu falo do cumaru aqui, as pessoas não sabem o que é. As pessoas que sabem, ouviram falar no Masterchef”.
A versão brasileira tem muito sucesso e permite que os brasileiros se apropriem das suas gastronomias e dos ingredientes do seus terroirs. Em específico, o cumaru, que muitas vezes substitui a baunilha no programa.
Pode parecer um paradoxo para um público francês acostumado à valorização do terroir e do consumo local. Na Amazônia, e no Brasil no geral, o que vem de fora é muitas vezes mais valorizado do que está sendo produzido no local.
São empresas de fora, do sudeste do país ou de outros países, que vem comprar uma matéria-prima que será valorizada e vendida fora da Amazônia. A criação de valor é exportada e o impacto ambiental e social consideravelmente limitado.
Os olhos do mundo estão virados para a Amazônia. Ainda mais desde o anúncio da organização da COP30 em Belém, que ocorrerá em novembro deste ano.
A bioeconomia é vista frequentemente como solução milagrosa para “Desenvolver um modelo que combina tradição e inovação, a vida das pessoas e da floresta”, como anuncia o plano estadual lançado pelo governo do Pará em 2022.
Para isso, como ressalta Juliana Carepa, é chave “acompanhar e proteger os atores locais para favorecer a transformação dos produtos no local”.
Para concluir, a empreendedora, que antes de mais nada é fã de carteir do cumaru, me revela como ela prefere consumir esse tesouro. Ela rala a semente na manteiga na hora de fritar um ovo. Testado e aprovado.
Gostou? Assina nossa newsletter aqui: https://stationamazonie.kessel.media/posts
