Floresta ou horta?
Nessa edição, falamos de laser, adubo pré-histórico e desmatamento. Vamos ao encontro de Cristiana Barreto, arqueóloga especialista da Amazônia que participa de um projeto incomum. Com outros colegas, eles desejam partir da arqueologia para preservar a floresta e defender os direitos dos seus habitantes.
Hugo Kloëckner
3/18/20257 min read


Station Amazonie é uma newsletter originalmente em francês que ajuda a desmistificar a Amazônia a partir de pessoas que vivem nela. Toda semana, conheça uma história local para entender esse território e seus desafios.
Essa newsletter foi criada para o público francês. Porém, acho importante esses conteúdos estarem também disponíveis em português, para que os entrevistados e outros interessados consigam acessá-lo.
Contexto:
A floresta virgem não existe: antes da colonização, seres humanos fertilizaram o seu solo, selecionaram as suas árvores e modificaram plantas.
O projeto Amazônia Revelada mapeia em 3D a floresta para identificar sítios arqueológicos e lutar contra o desmatamento.
O mapeamento revela numerosos vestígios do passado e os desgastes do presente.
“Durante a pandemia, eu e alguns amigos arqueólogos estávamos desesperados de ver o que estava acontecendo na Amazônia. E aí surgiu a ideia de montar um projeto baseado na arqueologia para preservar a floresta”
Cristiana Barreto pertence à primeira geração de arqueólogos brasileiros e se formou numa época onde, para estudar essa disciplina, tinha que sair do país. Hoje, ela é uma grande especialista da cerâmica amazônica e uma das coordenadoras do projeto Amazônia Revelada, financiado pela National Geographic Society.
Lançado em 2023, ele se baseia na tecnologia de teledetecção a laser (Lidar), que permite mapear os relevos do solo, em 3D, com um alto nível de precisão. Os cientistas buscam identificar, em grande escala, o máximo possível de sítios arqueológicos escondidos na floresta.


Adubo pré-histórico e agricultura agroflorestal: a floresta virgem não existe
Não é trivial fazer arqueologia em uma floresta tropical. Uma floresta densa, quente, úmida e pouco povoada: a priori, nada que poderia justificar a existência de grandes monumentos que associamos à arqueologia.
Desde o início da colonização no século XVI, a ideia de que a Amazônia é uma floresta virgem se enraizou no imaginário ocidental.
A ciência primeiro apoiou essa ideia, como explica Cristiana Barreto: “Nos anos 50, Beth Meggers, do Smithsonian Institute de Washington, criou a teoria que na Amazônia os solos são empobrecidos pelas chuvas fortes e que não há possibilidade de agricultura”
Até o fim do século XX, a cerâmica encontrada em abundância era uma das únicas fontes sobre a Amazônia pré-colonial. Pesquisadora na Universidade de São Paulo (USP) e professora no Instituto Emílio Goeldi de Belém, Cristiana Barreto aprendeu a ler nos cacos de cerâmica “como se fossem livros”.
“Uma coisa curiosa é que na iconografia da cerâmica amazônica não têm plantas. Nos Andes, tem vasos com milho ou batata, mas na Amazônia não.” E nenhuma referência à agricultura.


Essa abordagem determinista do meio ambiente dominou por muito tempo: as condições de vida difíceis teriam impedido o desenvolvimento de civilizações amazônicas.
Porém, a arqueologia se abriu aos poucos para outras disciplinas que permitiram abrir novas perspectivas. Para entender melhor a Amazônia pré-colonial, alguns se interessaram, surpreendentemente, pelas plantas e pela terra.
“A terra preta é um solo que se encontra nos sítios arqueológicos, que é muito escuro e que muitos agricultores usam porque ele é muito fértil”.
Estudos lançados nos anos 80 revelaram que esse solo, conhecido pelas populações locais por suas qualidades agrícolas, era, na verdade, um adubo pré-histórico.
Sabe-se hoje que esses solos foram modificados pelos seres humanos: a sua fertilidade vem da alta concentração de fósforo, cálcio, manganês e carbono orgânico, até 100 vezes mais alta do que nos outros solos.


Por milhares de anos, esses solos foram enriquecidos com lixo orgânico e carvão, sem que a gente pudesse saber em que ponto essa modificação era voluntária.
Uma coisa é certa: esses solos têm uma origem antrópica, como confirmam as numerosas cerâmicas encontradas neles. E eles são antigos: alguns foram datados há mais de 5.000 anos.
Estima-se que há 16.000 espécies de árvores na Amazônia, mas que apenas 227 delas representam mais da metade das árvores encontradas na floresta. E entre essas espécies dominantes, 60% são uma fonte de alimentação ou matéria-prima.
Mais de 83 plantas nativas foram domesticadas: mandioca, cacau, batata doce, abacaxi…
A agricultura era, sem dúvida, praticada na Amazônia, e os povos indígenas modificaram profundamente a floresta. A agricultura intensiva é que não existia. O impacto humano na paisagem amazônica ficou por muito tempo invisível ao olhar ocidental acostumado com as plantações de trigo.
As populações indígenas já praticavam agrofloresta e permacultura num contexto que era, ao contrário do que pensava Meggers, caracterizado pela sua abundância.
Pode ser umas das razões para explicar a ausência de representação de plantas nas cerâmicas locais, como explica Cristiana Barreto: “o valor dado ao produto agrícola é menor na Amazônia do que nos Andes porque, aqui, basta estender a mão para colher”.
A Floresta enxergada como patrimônio
Junto ao coordenador do projeto, Eduardo Góes Neves, e dos seus colegas Bruna Rocha, Carlos Augusto da Silva e Filippo Stampanoni, ela se inscreveu em um edital da National Geographic Society.
“O edital era para preservação de patrimônio, tipo uma catedral ou uma pirâmide. A gente se candidatou falando que a Amazônia é um monumento. Foi difícil convencê-los.”


Eles persistiram e conseguiram passar no edital para financiar um projeto piloto. Com a tecnologia Lidar, eles podem obter um desenho exato do relevo do solo. Assim, é possível mapear os territórios mais ameaçados para identificar potenciais traços de ocupação humana.
A ideia é simples: a descoberta de um patrimônio arqueológico é um argumento a mais para preservar a floresta.
“Essa ideia de floresta virgem é problemática porque ela pode servir a um projeto político. Se ninguém mora aqui, a gente pode se servir. Os povos indígenas que moram ali são ignorados e ameaçados”.
Como esse projeto foi pensado para proteger a floresta e os seus habitantes, as áreas analisadas foram definidas junto com eles. Os arqueólogos foram ao encontro de cada uma das comunidades cujo território ia ser sobrevoado, para obter o acordo delas.
Esse processo demorado permitiu identificar as áreas com mais probabilidades de encontrar vestígios arqueológicos. Os territórios mais vulneráveis frente às invasões e desmatamento também foram priorizados.


A tecnologia Lidar é uma pequena revolução que permite coletar um grande número de dados em um tempo recorde e que permite questionar ideias preconcebidas.
Assim, em janeiro de 2024, o arqueólogo francês Stéphen Rostain anunciou na revista Science a descoberta de uma cidade-jardim de 2.500 anos na Amazônia equatoriana.
Uma arqueologia do passado… e do presente
Os dados levantados com o projeto Amazônia Revelada não foram completamente analisados, mas descobertas já foram feitas.
“A gente começou sobrevoando o Acre, onde tem muitos geoglifos. Queríamos entender se esses desenhos se estendem mais adentro da floresta. E sim, é o caso. A gente também descobriu que esses sítios eram interligados com trilhas.”
Sabe-se que há muito tempo existe uma densa rede de trilhas que permitiam o deslocamento a pé em longa distância. Assim, o capitão Altamirano, cronista da expedição de Lope De Aguirre (que inspirou o filme do Werner Herzog) conta que, em 1562, ele conseguiu percorrer 200 km em uma trilha partindo do rio Solimões.
Outras estradas foram construídas, especificamente desde os anos 70, e Cristiana Barreto faz uma observação implacável: “na região do Tapajós, atravessada pela Ferrogrão, a gente só viu destruição. É possível fazer uma arqueologia da destruição provocada pelas estradas, estradas de ferro e portos”.
Os dados coletados alimentam uma base de dados. As imagens são analisadas e, uma vez que os sítios são levantados, inicia-se um trabalho de formiga. Tem que registrar essas áreas junto ao IPHAN para que elas possam se beneficiar de uma camada de proteção jurídica adicional.
E, talvez, interromper obras e empreendimentos quando elas constituem uma ameaça ao curto prazo. Mas, para isso, tem que ir a campo fazer pesquisa. E isso demanda tempo.
Joycilene Pereira, agricultora de quem compro meus legumes toda semana, tem seu sítio localizado em Santo Antônio do Tauá, a 40 km de Belém. Ela mencionou que a maioria das suas plantações são feitas em terra preta e como ela mesma explica, “em relação à terra amarela, o ciclo de vida da planta é bem maior”.
Ela acrescenta: “aqui a gente trabalha com orgânicos há mais de 20 anos e nós alimentamos a terra, por isso nosso solo é muito bom”. Na continuidade do que se faz há milhares de anos na Amazônia.
Há alguns anos atrás, ela encontrou na terra preta um pedaço de jutaicica, uma resina da árvore jatobá usada pelos povos indígenas para envernizar cerâmicas. Talvez uma relíquia das populações que ocupavam essa terra antes da Joycilene?
Semana que vem: a Amazônia não é o pulmão do planeta (mas continua sendo um problema se ela desaparecer).
