Ford, a borracha e a bioeconomia

Hoje vamos tratar de um conceito que está na moda na Amazônia: a bioeconomia. Eu fui conversar com o Augusto, um bom conhecedor do ecossistema amazônico, para entender como uma empresa pode ter impacto na Amazônia.

Hugo Kloëckner

4/2/20257 min read

Station Amazonie é uma newsletter originalmente em francês que ajuda a desmistificar a Amazônia a partir de pessoas que vivem nela. Toda semana, conheça uma história local para entender esse território e seus desafios.

Essa newsletter foi criada para o público francês. Porém, acho importante esses conteúdos estarem também disponíveis em português, para que os entrevistados e outros interessados consigam acessá-lo.

Contexto:

  • A bioeconomia é a promoção de atividades econômicas baseadas em recursos naturais (majoritariamente florestais), com respeito aos limites da biosfera e remunerando justamente as populações locais.

  • O governo do Estado quer aproveitar a COP para fazer de Belém a capital da bioeconomia.

  • Ford aprendeu a lição ao seu custo: a lógica top-down não funciona na Amazônia.

  • No contexto amazônico é preciso de uma governança adaptada às condições e culturas locais.

“A derrota do Ford, o maior empreendedor da sua época, deixou uma lição para gente: as soluções tem que vir de dentro”


José Augusto Lacerda Fernandes é doutor em desenvolvimento sustentável e professor na Universidade Federal do Pará (UFPA). Há 10 anos, ele pesquisa empreendedorismo.



Um novo modelo surgiu junto com a conscientização sobre a emergência climática: a bioeconomia. Ela pode ser definida como a promoção de atividades econômicas baseadas em recursos naturais (majoritariamente florestais), com respeito aos limites da biosfera e remunerando justamente as populações locais.

Desde a escolha de Belém para sediar a COP em 2025, essa palavra está na boca de todos e as autoridades ambicionam fazer da cidade a capital da bioeconomia. Já em 2022, o governo prometia que os produtos da bioeconomia poderiam representar um potencial de 120 bilhões de dólares em faturamento anual.


Desenvolvimento e preservação da floresta: no papel, essa solução parece perfeita. Porém a Amazônia não é exatamente o Vale do Silício e para ilustrar essa diferença, o pesquisador Augusto Lacerda começa me dando um exemplo histórico.


Quando Ford quer ter sucesso onde todos falharam: a epopeia de Fordlândia


Antes de virar “o pulmão do planeta” (um mito que eu desconstruí semana passada, o artigo se encontra aqui), a Amazônia foi considerada por muito tempo pelo Ocidente como um inferno verde resistente a qualquer forma de atividade econômica.


Nos anos 1920, Ford, então o homem mais rico da sua época, quis se desafiar e provar ao mundo que ele ia conseguir onde todos falharam.


Considerado como um empreendedor de gênio, ele revolucionou a indústria automóvel com a racionalização extrema dos processos de produção. Ele fez bombar a produtividade, baixou os custos de produção e fez do item de luxo um bem de consumo massivo.


Em 1919, Ford abriu uma filial no Brasil para lançar uma ofensiva num mercado até então dominado pelos atores europeus. Foi um sucesso e o empreendedor enfrentou rapidamente um gargalo: cada carro tendo 4 pneus, a demanda por borracha explodiu.


Na época, o mercado era dominado pela Ásia. O Império britânico tinha desenvolvido nas suas colônias uma produção intensiva de borracha. O Brasil, terra de origem da Hevea, depois de muito tempo numa posição de monopólio (1879-1912), estava por trás em relação à concorrência asiática.


Por uma razão simples: ninguém conseguiu produzir borracha em grande escala na Amazônia. Quando as heveas são plantadas umas ao lado das outras, uma doença se desenvolve rapidamente e destroi as safras.


Mas Ford tem uma visão: ele vai ser o primeiro a conseguir produzir borracha de qualidade em grande escala na Amazônia. Frente ao risco de ver o Churchill cortar o acesso à preciosa borracha, ele quer garantir o seu abastecimento em borracha.


Ele compra 10 000 km quadrados ao longo do Rio Tapajós, a 18 horas de barco da cidade mais próxima (não muito longe da terra natal de Alessandra Korap Munduruku, ativista indigena que eu tinha entrevistado mês passado, o artigo se encontra aqui).


Ele pensa grande logo de entrada e cria uma cidade. O nome : Fordlândia, uma utopia nascida em 1928. Ele investe 2 milhões de dólares (31 milhões atualizados) e manda 2000 pessoas começarem a plantar hevea.


O lugar reproduz, no meio do mato, as ruas de uma cidade típica dos Estados-Unidos, com uma praça central, uma rua comercial e linhas de casas. Tem escolas, hospitais e até uma câmera fria (um luxo nos anos 20, ainda mais no meio de uma floresta tropical).


Aplicando a receita bem-sucedida do fordismo e racionalizando a produção, ele pretende ser o primeiro a produzir borracha em grande escala na Amazônia. Ele convoca agrônomos especializados na agricultura intensiva norte-americana.


Nada é deixado ao acaso: os trabalhadores vêm da região mas os managers são norte-americanos já familiarizados com os métodos revolucionários desse Elon Musk da era industrial.


E bem como o dono da Tesla, uma camada ideológica vem se sobrepor a essa utopia empreendedora. Alcohol é proibido, jardinagem e leitura de poesia “incentivados”. Os dias são enchidos com o barulho das máquinas de bater ponto e um alarme ritmam os dias dos trabalhadores.


A reprodução dessa receita de sucesso chega ao extremo: no restaurante corporativo, todo dia, é servido arroz integral, mingau de aveia e pêssego em lata. Importados dos Estados-Unidos, junto com os métodos de trabalho e de plantio.


Isso vai resultar em duas consequências.


A derrota de uma estratégia top-down e de uma governança vertical


Nos recursos humanos primeiramente. Impedidos de ir pro bar no fim do expediente para relaxar, forçados a adotar uma dieta norte-americana e a seguir um ritmo de trabalho extenuante, os trabalhadores se revoltaram. Eles destruíram as instalações elétricas e as máquinas de bater ponto aos gritos de “O Brasil aos Brasileiros, morte aos americanos”, como relata na sua obra Fordlândia o historiador norte-americano Grec Grandin.


Os managers, por sua vez, são vítimas de doenças tropicais e alguns sofrem de depressão. A vida amazônica não corresponde exatamente ao seu American dream.


Do lado operacional, a natureza não demorou a se manifestar. Nas plantações, a sur-representação da espécie provocou a proliferação de um fungo que passa sem dificuldade de uma árvore para outra. Isso impede a safra do precioso leite de dar os resultados esperados.


No fim da Segunda Guerra Mundial, com a concorrência da borracha sintética e a potência da borracha asiática, Ford tem que desistir. Ele vende as suas terras pro governo brasileiro por 244 200 dólares, longe dos 20 milhões perdidos nessa aventura.

As ruínas dessa cidade fantasma ainda são visíveis, habitadas por alguns descendentes dos trabalhadores e migrantes que chegaram atrás de um teto. Essas ruínas deixam um recado claro: a governança vertical na Amazônia não dá certo.


“Se ele não conseguiu empreender apesar de todos os seus recursos, tem uma razão: para empreender na Amazônia, tem que fazer intercâmbio, consultar e construir parcerias”.


Metaorganização e governança horizontal: uma abordagem anti-Ford aplicada a bioeconomia


O objetivo hoje deixou de ser a produção da borracha e passou a ser a preservação da floresta em pé. Porém, a abordagem do Ford segue e muitos ainda pensam que a Amazônia pode ”ser salva” de fora.

José Augusto Lacerda Fernandes co-escreveu com Héloïse Berkowitz um capitulo do livro Bioeconomia para quem?. Essa publicação acadêmica analisa o estado atual da pesquisa sobre essa nova maneira de pensar o empreendedorismo.


Com a pesquisadora em ciências da gestão do Centro Nacional de Pesquisa Científica francês (CNRS), eles focaram numa das soluções implementadas para pôr um fim nessa lógica do “top-down”, do topo da pirâmide até a base.


Eles identificaram assim que para beneficiar plenamente do potencial transformador da bioeconomia, “requer novas estratégias e mecanismos de governança, principalmente no que toca à articulação com as populações tradicionais envolvidas nesse processo”.


Para ilustrar esse argumento, eles analisaram o exemplo de Origens Brasil. Essa rede reúne organizações diversas: associações e cooperativas de populações locais com grandes empresas (como Carrefour ou Havaianas).



Essa rede é uma metaorganização, isso quer dizer uma organização composta por outras organizações (como a ONU por exemplo, que é uma organização composta por outras organizações, os países).


Origens Brasil é um selo que junta 92 associações e 40 empresas que buscam favorecer uma remuneração justa de insumos produzidos localmente e respeitando o meio ambiente. Um QR code presente no produto final vem garantir a rastreabilidade.


O professor da UFPA me explica: “eles levaram o presidente da Wickbold (empresa que produz 20% dos pães de fôrma do Brasil) e botaram para sentar junto com uma liderança indigena para negociar o preço da castanha do Pará (usada no pão). Uma metaorganização possibilita esse diálogo horizontal e uma relação mais justa”.


Ele continua “existem linguagens e códigos diferentes. Mas com esse encontro, o presidente da Wickbold começou a entender que a castanha não é plantada, que ela depende do extrativismo, o que explica por exemplo as variações de preço ao longo do ano”.



Se compreender e negociar um preço justo baseado no contexto de cada um e implementar uma economia inclusiva, isso tudo demanda tempo.


“Umas das contrapartidas do tempo é interessante porque ela entra em contradição com a urgência da situação. A gente tem colocado essa bioeconomia como uma bala de prata, que vai ser a bala salvadora para afastar o ponto de não retorno”.


(O ponto de não retorno é o momento a partir do qual a floresta é tão prejudicada que não é mais possível preservá-la. Falei disso semana passada, artigo disponível aqui.)


De fato, a bioeconomia não é uma bala de prata. Pelo contrário, a construção de soluções pensadas no território com as pessoas que moram nele é uma alternativa pragmática e eficiente para mudar o rumo das coisas. É urgente tomar o tempo. Depois do fordismo, o amazonismo?

Durante uma visita a campo, com produtores de cacau em Mocajuba (PA) (c) archivo pessoal Augusto Lacerda