Habemus Amazoniam

Desde a semana passada, os cardeais estão se encaminhando para o Vaticano para participar do Conclave e eleger o novo papa. Hoje, irei contar sobre um outro exercício democrático da vida eclesiástica e um dos momentos chave dos doze anos do pontificado do papa Francisco.

Hugo Kloëckner

4/30/20255 min read

Station Amazonie é uma newsletter originalmente em francês que ajuda a desmistificar a Amazônia a partir de pessoas que vivem nela. Toda semana, conheça uma história local para entender esse território e seus desafios.

Essa newsletter foi criada para o público francês. Porém, acho importante esses conteúdos estarem também disponíveis em português, para que os entrevistados e outros interessados consigam acessá-lo.

Em outubro de 2019, o líder da Igreja reuniu por 21 dias, em Roma, o Sínodo da Amazônia. Pauta principal: construir o futuro da Igreja na Amazônia.


O papa Francisco já tinha publicado em 2015 o Laudato Si, alguns meses antes da assinatura dos acordos de Paris. Nesse texto, subtitulado “sobre o cuidado da casa comum”, ele defendia uma abordagem integrativa da ecologia.


Como o estudo dos ecossistemas não podia ser reduzido à ciência, ele ampliava esse paradigma para incluir ética e espiritualidade na análise das nossas relações com a natureza.


Na continuidade desse trabalho reflexivo, o Sínodo da Amazônia juntou 185 pessoas, religiosas e laicas, representantes indígenas, cientistas e outras partes interessadas.


“O maior desafio – e também a maior oportunidade – tem sido contribuir para uma síntese entre ciência, espiritualidade e justiça social”

Ima Vieira é ecóloga e pesquisadora no Museu Emílio Goeldi em Belém. Ela identifica, prevê e analisa o impacto das atividades humanas no meio ambiente.


Membra da Academia brasileira de ciências, a sua expertise é reconhecida e frequentemente solicitada pelos decisores. Ela participou da equipe de transição que preparou a posse do presidente Lula.


O papa Francisco a convidou para participar do Sínodo. E ela me contou os bastidores desse evento.


Uma abordagem original para promover uma escuta ativa


Para fazer dialogar maneiras radicalmente diferentes de conceber as coisas (entre religiosos, cientistas e populações locais), a Igreja implementou uma metodologia original.


Primeiro, antes do evento, mais de 80.000 pessoas da Amazônia foram consultadas. (Ao contrário do que fez o empresário estadunidense Ford, como contei nesse artigo).


Depois, durante o Sínodo, as trocas foram ritmadas de uma maneira peculiar. Durante as assembleias gerais, “cada participante dispunha de apenas quatro minutos para sua fala, sem possibilidade de intervenções ou debates. Após quatro falas consecutivas, havia um período de quatro minutos para reflexão individual em silêncio.”



Momentos de trocas diretas e debates também aconteciam em pequenos grupos.


A promoção dessa escuta ativa fez com que pessoas de idiomas, culturas e espiritualidades diversas conseguissem se entender.

O papa Francisco afirmou no seu discurso de abertura que “devemos nos aproximar dos povos amazônicos na ponta dos pés, respeitando sua história, sua cultura, seu estilo de bem viver."


Segundo a cientista, “Ao priorizar a escuta sobre o discurso, o silêncio reflexivo sobre o debate imediato, e ao dar igual tempo de fala para representantes indígenas e altos membros da Igreja, o Sínodo estabeleceu um modelo de diálogo intercultural verdadeiramente inovador.”


Reinventar o papel da Igreja


Padres casados, o ministério para as mulheres, pecado ecológico, mineração, desmatamento ilegal: os temas abordados foram múltiplos.


O papa esteve presente durante o Sínodo, escutando e participando das trocas.


Como ele comentou em um momento, para ele, as práticas predatórias na Amazônia refletem uma mentalidade totalitária que subjuga tanto a natureza quanto os povos originários. Em oposição completa com a mensagem cristã.

Segundo a pesquisadora, é uma das heranças-chave deste evento: a Igreja católica se apropriou do conceito de ecologia integral que faz uma ponte entre proteção do meio ambiente e justiça social.


Já com o seu Laudato Si, a encíclica (explicaria o que é, nem todo mundo sabe) publicada em 2015, o papa surpreendeu os católicos. Pela primeira vez, a mais alta autoridade católica fazia da proteção do meio ambiente uma pauta espiritual.


Como Ima Vieira descreve, com o Sínodo, “a Igreja buscou reimaginar o seu papel na Amazônia – não mais como uma instituição que chega para converter, mas como uma comunidade que aprende com os povos da floresta e se deixa converter pela sabedoria que eles carregam.”


Amazonizar a Igreja e o mundo


É difícil medir o impacto do Sínodo. Porém, pelo menos no papel, perspectivas - e bastante revolucionárias - foram abertas.

A cientista participou, em seguida dessas trocas, da redação dos 10 mandamentos do Sínodo da Amazônia.


O primeiro estipula:

“Amazonizarás a Igreja de forma a acolher as culturas e tradições amazônicas como expressão do Espírito de Deus que conduz os povos e a vida.”


“Amazonizar” é aqui usado como um verbo de ação que incentiva a conhecer a Amazônia e fazer conhecer as experiências amazônicas.


Concretamente, pela Igreja, esse é um apelo a adaptar as hierarquias eclesiásticas e a sua liturgia às práticas e culturas locais. Também é um apelo para rever a relação construída com as espiritualidades e práticas religiosas locais e não católicas.


Essa ideia de inversão da conversão (“deixar-se converter”) ultrapassa o campo religioso.


Para Ima Vieira, a abordagem metodológica (escutar antes de discursar) e conceitual (a ecologia integrada) do Sínodo pode ser uma fonte de inspiração para todos.


“Na perspectiva da COP 30, o legado do Sínodo oferece a ideia de que a Amazônia não é apenas um “recurso” a ser explorado, mas um espaço que exige respeito e cuidado. A ecologia integral propõe que todas as decisões sobre o clima e o desenvolvimento sejam guiadas por uma visão que integre justiça social, conhecimento científico e responsabilidade ética.”


Antes da COP, vai acontecer o conclave que iniciará dia 7 de maio. Um novo papa será eleito. Carbon Brief, uma mídia anglófona dedicada ao clima, avaliou as posições dos candidatos sobre o tema.


Pietro Parolin, o favorito, assinou os acordos de Paris enquanto Secretário de Estado do Vaticano. Ele descreveu a destruição do meio ambiente como “uma ofensa a Deus”.


Ao mesmo tempo, em 2024, na COP em Baku, a sua delegação foi acusada por diplomatas de ter forjado um acordo com a Arábia Saudita, o Irã e a Rússia a fim de bloquear as discussões sobre gênero.


Continua no próximo pontificado.




A cientista junto ao papa (c) arquivos pessoais

Abertura do Sínodo (c) Vaticano

Ima Vieira é referência internacional em biodiversidade amazônica (c) arquivos pessoais