Na selva urbana de Belém
Nesta primeira edição, Belém. Com Jean Silva ativista do clima, vamos conhecer uma cidade amazônica, descobrir o quotidiano dos seus habitantes e o que se prepara para COP.
Hugo Kloeckner
2/18/20258 min read
Contexto:
3 em cada 4 pessoas na Amazônia brasileira vivem em cidades
Em Belém, mais de 50% da população vive em áreas precárias e propensas a inundações
Belém será a segunda cidade mais quente do mundo até 2050
“As pessoas daqui muitas vezes não se sentem amazônidas porque não vivem na floresta”
Jean Silva me recebe no Gueto Hub, centro cultural fundado por ele no bairro popular do Jurunas, em Belém.


É um fato pouco conhecido: de acordo com o IBGE, 73% dos habitantes da Amazônia brasileira são moradores de áreas urbanas. Essa é quase a mesma proporção da França, onde 81% da população vive em cidades.
No entanto, a floresta não está longe. A apenas algumas centenas de metros de distância do Gueto Hub está o rio Guamá, um dos afluentes do Amazonas. Do outro lado do rio, é possível ver árvores até onde a vista alcança.
Urbana e amazônica: Belém questiona o nosso imaginário
“Hoje eu me sinto amazônida, mas isso é recente”. Como se ser urbano e amazônida não fosse necessariamente evidente. As buzinas, os arranha-céus e o lixo que assa sob o sol criam um mundo de sons, cenários e cheiros diferentes do que se poderia esperar.
Mas as cidades daqui não são como Paris ou Pequim: elas são cercadas por florestas e água. Belém vive ao ritmo de seu ambiente, como Veneza ou Chamonix (cidade francesa que fica na montanha e fica cercada de neve no inverno).
Para Jean, isso é muito claro: “Nós, que somos da cidade, também somos da floresta. Todos que vivem aqui, de uma forma ou de outra, dependem dos arredores e das ilhas, da farinha de mandioca e do açaí que vêm de lá.”
O município de 1,3 milhão de habitantes inclui, além das terras continentais, um arquipélago de 42 ilhas cobertas por uma densa vegetação. De dia e de noite, barcos desembarcam para abastecer os habitantes da cidade.
Esse balé não é uma novidade. Na junção do rio Guamá e da baía do Guajará, esse porto natural tem sido usado há milhares de anos pelos povos indígenas da região. Muito antes da fundação oficial da cidade pelos portugueses em 1616.
Do rio chegam mercadorias e pessoas. A população belenense veio inicialmente dos povos da floresta, como são chamados aqui: indígenas, quilombolas e ribeirinhos.
Foi somente na década de 1960 que a construção de estradas permitiu a chegada de migrantes nacionais e internacionais por terra.
Com o êxodo rural, a cidade se desenvolveu ao longo do rio.
Joana, avó de Jean, chegou de barco na década de 1940, vinda do Marajó, um arquipélago do tamanho da Suíça localizado a 100 km da capital do estado do Pará. Com seu marido e seis filhos, “ela achava que vir para Belém significava poder mudar de vida”.
Com sua promessa de modernidade, a cidade já foi uma das mais ricas do mundo. Com o boom da borracha na Belle-Époque (final do século XIX - início do século XX), as grandes famílias gastaram as fortunas geradas pelo monopólio da renda (a Amazônia era então a única produtora mundial de látex) para construir a Paris dos trópicos.
Apesar de sua ruína após a crise da borracha (agora produzida em larga escala na Ásia), Belém continuou sendo um centro econômico que atraiu populações rurais. Elas chegam pelo rio e se estabelecem nas áreas que alagam.


“A área era inabitável, então eles construíram palafitas conectadas umas às outras por pontes”, conta Jean.
Essa ocupação informal da terra é uma estratégia para se adaptar às condições geográficas. Mas também é um reflexo cultural: em toda a região, os rios são ladeados por essas casas sobre palafitas.
No total, 57% da população da cidade vive em áreas urbanas precárias, de acordo com o IBGE. Aqui, elas não são chamadas de favelas, mas de baixadas. A realidade social é a mesma, mas a realidade geográfica é diferente. Uma é construída em morros altos e a outra nas margens do rio, em terras que alagam.
Foi assim que o Jurunas foi construído, a área onde Jean e sua família vivem até hoje. À medida que o Jurunas crescia, casas de tijolo surgiam e gradualmente substituíam as palafitas. A parte norte, próxima ao bairro nobre de Batista Campos, está se verticalizando. Torres enormes surgiram, aumentando artificialmente o preço por metro quadrado.
Mas, às margens do rio, as moradias precárias permanecem e as baixadas continuam a se espalhar ao longo dessa fronteira natural.
Jean Silva, 30 anos, na biblioteca do Gueto Hub, no bairro do Jurunas.
© Dany Neves para Station Amazonie.
Na Vila da Barca, uma baixada no Norte da cidade, onde tem muitas palafitas até hoje.
(c) Celso Abreu
Biblioteca, galeria de arte, centro de treinamento e coworking: o Gueto Hub se tornou uma instituição
© Dany Neves para Station Amazonie


As condições de vida nas baixadas são precárias
Belém tem uma reputação ruim. Quando o presidente Lula propôs que a cidade sediasse a COP, muitas pessoas no Brasil rangeram os dentes.
Falta de infraestrutura, insalubridade, insegurança. O próprio chefe de estado disse durante sua visita na quinta-feira, 13 de fevereiro: “Vamos realizar a COP aqui. Não é um problema o fato de Belém estar do jeito que está. [...] Eles (os estrangeiros) verão como vivemos aqui”.
O canal que passa em frente ao Gueto Hub é um esgoto a céu aberto. O lixo flutua na superfície e, na época das chuvas, transborda. Na década de 1950, a avó de Jean costumava lavar as roupas da família onde hoje é esse canal, mas que na época ainda era um igarapé. E os habitantes locais pescavam no canal até os anos 2000.
Quando fundou o centro em 2019, Jean queria compensar a falta de um espaço cultural. Ele também queria retomar a forte tradição de envolvimento comunitário do bairro. Ao longo dos anos, esse envolvimento levou à chegada de eletricidade, escolas e centros de saúde.
Em 2022, Jean do Gueto, como ele mesmo se autodenomina nas redes sociais, lançou o Igarapé da Paz, com artistas locais. Um projeto de exposição a céu aberto ao longo do canal, que conta a sua história e denuncia suas condições.
A ausência de um sistema de tratamento de esgoto, de coleta de lixo e as enchentes, fazem com que eles queiram se reapropriar no canal novamente, fazer com que ele volte a ter vida..No início, a abordagem deles era essencialmente local e social.
Fresco do projeto Igarapé da Paz. O nome do distrito é uma homenagem aos Jurunas, “bocas pretas” em tupi-guarani, um dos povos que habitavam a região na época da colonização. (c) Josué Oliveira
De ativista cultural a ativista climático
“Não entendíamos que falar sobre esgotos e sobre a memória de um rio, de um braço de rio que hoje é um canal, era falar sobre o clima. Não sabíamos o que era justiça climática e adaptação”.
Os ativistas climáticos os conscientizaram e eles perceberam que as baixadas eram diretamente afetadas pelo que antes parecia remoto e abstrato: a mudança climática.
As chuvas agora são mais violentas e imprevisíveis. A impermeabilização do solo e o bloqueio dos leitos dos rios estão causando inundações. A água não tratada e a poluição estimulam as doenças.


Rua de Belém alagada, novembro de 2023 (c) Irene Almeida
Junto com essas ideias, eles também descobrem a frustração desses ativistas que retornam de Glasgow, onde a COP foi realizada em 2021. Eles se sentem deixados de lado e não são ouvidos.
“Isso nos indignou e eu disse: em vez de ir a uma COP, vamos fazer nossa própria COP.” E foi assim que nasceu a COP das Baixadas, uma coalizão de associações locais que organiza eventos para educar as pessoas sobre as mudanças climáticas.
O primeiro evento foi realizado em 2022 e, alguns meses depois, Jean foi convidado para a COP no Cairo (Egito). Ele também participaria das duas próximas, em Dubai (Emirados Árabes Unidos), em 2023, e em Baku (Azerbaijão), em 2024.
Três COPs consecutivas permitiram que ele confirmasse o que lhe foi dito: sediar o evento não é necessariamente uma boa notícia para a população local. Opositores silenciados, maquiagem urbana e greenwashing: “às vezes o que vem de fora chega como um trator”, como ele descreveu ao voltar do Cairo.


As associações da COP das Baixadas se reúnem para definir sua estratégia para a COP30 © Hugo Chaves
A Yellow Zone: um pé na porta da COP
Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) confirmou, em dezembro de 2023, que Belém sediaria o evento em 2025, o projeto ganhou uma dimensão totalmente nova.
Ao mesmo tempo, um estudo revelou que, em 2050, a cidade seria a segunda mais quente do mundo, logo à frente de Dubai (Carbon Plan e Washington Post). Até lá, serão 222 dias por ano acima de 32 graus, em comparação com os 50 dias no ano 2000.
“A COP das Baixadas estava em um processo de articulação de um movimento educacional que previa um prazo de 10 anos, mas com a COP30 em Belém, tivemos que pisar no acelerador”.
Para aproveitar os holofotes que a cidade terá durante 10 dias em novembro, eles criaram um novo conceito: a Yellow Zone (zona amarela).
Station Amazonie é uma newsletter originalmente em francês que ajuda a desmistificar a Amazônia a partir de pessoas que vivem nela. Toda semana, conheça uma história local para entender esse território e seus desafios.
Essa newsletter foi criada para o público francês. Porém, acho importante esses conteúdos estarem também disponíveis em português, para que os entrevistados e outros interessados consigam acessá-lo.
Belém vista da baia do rio Guama © Archivo pessoal


Cartaz do evento de lançamento da Zona Amarela do Jurunas, em setembro de 2024 (c) Ian Ferreira
As COPs são tradicionalmente divididas em Blue Zone (zona azul), reservada para os tomadores de decisões políticas, e Green Zone (zona verde), reservada para patrocinadores e sociedade civil credenciada.
À margem dos prédios oficiais, a Yellow Zone será instalada em locais de referência (como o Gueto Hub), como uma espécie de Off no Festival de Avignon (maior festival de teatro da França, sendo o Off o festival não oficial, onde todo mundo pode se apresentar, e que acontece nas ruas e nas garagens da cidade). O motivo é simples e ambicioso: descentralizar o discurso e ajudar a moldar as políticas ambientais.
Ao final de nossa entrevista, Jean acrescentou: “Para mim, ser amazônida significa ter uma singularidade, tanto pessoal quanto coletiva. Acho que é o Gueto Hub e a COP das Baixadas que me fazem amazônida, porque estou participando de uma luta coletiva”.
O desafio de curto prazo para a COP das Baixadas é grande: fazer com que suas vozes sejam ouvidas e receber ativistas de todo o mundo. Nos próximos meses, voltaremos com eles para descobrir que forma essa luta assumirá.
Na próxima semana: enquanto as autoridades prometem que tudo estará pronto para receber o mundo, uma coalizão de organizações indígenas ameaça bloquear a COP.
